Extensão como experiência museal

Autores: Eliane Frenkel e Fernanda Guedes.

ônibus e participantes do turismo  imagem1O ”Turismo Cultural no Bairro Imperial” é uma atividade de extensão, que acontece desde 2009 na cidade do Rio de Janeiro, no Bairro Imperial de São Cristóvão, onde ficam localizados seis museus e centros culturais cujos acervos e patrimônio arquitetônico e histórico recebem, por ano, cerca de 400 mil visitantes. Este projeto, que faz parte do projeto “Ciência, História e Cultura, o Museu na Quinta da Boa Vista”, tem a intenção de estimular a visitação, a disseminação e a acessibilidade aos conhecimentos científicos e culturais, além de proporcionar atividades que valorizem a conservação e a preservação desses importantes patrimônios.

Trata-se de um roteiro cultural gratuito, em que, durante um final de semana de maio - como parte da Semana Nacional de Museus* -, 12 ônibus, em intervalos regulares, saem do Parque da Quinta da Boa Vista com destino às instituições culturais da região: Museu de Astronomia e Ciências Afins, o Museu Nacional/ UFRJ, o Museu Militar Conde de Linhares, o Clube de Regatas Vasco da Gama, o Batalhão de Guardas do Imperador e o Centro Cultural Maçônico do Supremo Conselho do Brasil: todas com entrada franca e uma série de atividades especiais, como oficinas e apresentações teatrais. Em apenas dois dias são recebidos cerca de 30 mil visitantes.

Durante o trajeto o visitante escolhe seu próprio roteiro, podendo visitar todas as instituições ou apenas as de seu maior interesse.  Ao sair de cada local, ele poderá embarcar novamente nos veículos identificados, que contam com guias turísticos que dão orientações sobre o evento e sobre as atrações. Todos os ônibus são adaptados para o acesso de cadeirantes e deficientes físicos.

Como parte do reconhecimento por sua abrangência, o “Turismo Cultural no Bairro Imperial” já faz parte do calendário de eventos da Prefeitura do Rio, distribuído por todas as agências de turismo da capital e divulgado no portal da cidade. Esta proposta se enquadra também no Projeto de Revitalização de São Cristóvão, que pretende tornar a região mais atrativa do ponto de vista científico, urbanístico e sociocultural, devolvendo ao bairro a posição de destaque que sempre ocupou no cenário da cidade do Rio de Janeiro.

Atualmente, o bairro é alvo de grandes empreendimentos imobiliários que buscam retomar seu perfil residencial dentro da cidade. Já a Quinta da Boa Vista, maior parque público da Zona Norte e ponto de partida da atividade, conta com um público espontâneo que lota suas dependências durante os finais de semana.

Um dos parâmetros de avaliação do projeto são as pesquisas, uma excelente oportunidade em que docentes, técnicos e alunos das instituições participantes estabelecem canais de comunicação com o público. Na última edição, realizada em 2012, foram obtidos os seguintes resultados: de uma maneira geral, em aspectos demográficos, a população da Zona Norte foi a que mais compareceu ao Turismo Cultural, totalizando 64,3% dos visitantes. Com uma parcela de 25% do público, a Baixada Fluminense teve uma participação significativa, demonstrando que, quando há uma boa divulgação e interesse, a distância não é impeditiva para o deslocamento populacional. Em relação à idade, a maioria dos participantes encontra-se na faixa etária entre 31 e 40 anos, seguida pela de 21 a 30 anos, com 26 e 25% respectivamente.

O sucesso do “Turismo Cultural no Bairro Imperial” advém do pressuposto de que todas essas instituições são locais de reflexãoorientação aos visitantes na Quinta imagem2 social e devem inserir-se na sociedade, cumprindo seus objetivos de produtoras e difusoras de história, ciência, arte, tecnologia e cultura; áreas compreendidas como um campo estratégico vital para a construção da cidadania.

Conforme o relatório de gestão 2003/2010 da Política Nacional de Museus (Ministério da Cultura, Instituto Brasileiro de Museus), o Brasil, segundo os dados do Cadastro Nacional de Museus, vive um período sem precedentes em relação à criação de unidades museais. O país iniciou o século XX com cerca de 12 museus e chegou ao século XXI com 3.025 unidades museológicas.

Em função desse crescimento, os pesquisadores têm buscado compreender a “experiência museal”, demonstrando o que ocorre quando o museu abre suas portas para os visitantes e de que maneiras esta instituição pode colaborar para a formação de uma cultura científica da sociedade como um todo e, especialmente, o que caracteriza e diferencia este tipo de experiência (COLINVAUX, 2005: p.80).

Um relato interessante foi dado por uma visitante que participou com seus filhos da visitação aos museus durante o “Turismo Cultural”. Ela afirmou que, após ser indagada por seus filhos sobre uma exposição de história natural e não saber a resposta, ela procurou comprar livros de ciência em uma banca próxima a sua residência para ler e adquirir o conhecimento para explicar aos filhos. Ou seja, há neste fato, um aprendizado conjunto, um incentivo ao estudo e também uma relação de troca. Esta mãe sintetiza esta experiência da seguinte forma: “é uma união, um afeto, é o papel da família, é muito bom. Senti-me mais próxima e mais amiga dos meus filhos”.

O reconhecimento dos museus e demais centros culturais como locais de aprendizagem e convívio ratifica a importância dos espaços de educação não formal para a aquisição de conhecimento. Afinal, a aprendizagem é um processo construído ao longo da vida e que acontece não somente na escola (espaço de educação formal), mas também por meio da interação com pares, colegas, comunidades e com os múltiplos espaços culturais disponíveis no contexto social (CAZELLI E VERGARA, 2007: p. 2).

*A Semana Nacional de Museus é um evento de periodicidade anual promovido pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) para estimular a visitação a essas instituições.

Bibliografia

CAZELLI, Sibele; MARANDINO, Martha; STUDART, Denise. Educação e comunicação em museus de ciência: aspectos históricos, pesquisa e prática. In: GOUVÊA, G; MARANDINO, M; LEAL, M. C. (Org). Educação e museu: a construção social do caráter educativo dos museus de ciência. Rio de Janeiro: Access, 2003, p. 83-106.

CAZELLI, Sibele; VERGARA, Moema. O passado e o presente das práticas de educação não formal na cidade do Rio de Janeiro. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, 1., 2007, Niterói. Anais. Niterói: Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, 2007. 1 CD-ROM.

COLINVAUX, Dominique. Museus de ciências e psicologia: interatividade, experimentação e contexto. História, Ciências, Saúde Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 12, p. 79-91, jan.-abr. 2005. Suplemento.

INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS (Brasil). Relatório de gestão 2003-2010Política Nacional de Museus. Brasília, DF: Ministério da Cultura: Instituto Brasileiro de Museus, 2010. Disponível em:
http://www.museus.gov.br/wp- content/uploads/2011/04/relato_gestao.pdf>. Acesso em: 23 out. 2011.

 

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